domingo, 4 de abril de 2021

Coelhos e ovos de chocolate, crucificação de Jesus e não comer carne: o que é mito ou verdade na Páscoa?

Em fim de semana de Páscoa, o Observador olha para cinco grandes
questões à volta da época pascal, ajudando a desmontar algumas ideias
antigas, que ainda hoje têm eco nas redes sociais. E até o famoso
coelho — muitas vezes usado por esta celebração com o objetivo de
criar uma relação com os mais novos — acabou verificado: será que,
nos textos sagrados, este animal assume uma relevância significativa?
E quanto à abstinência nesta época, não devemos mesmo comer carne por
imposição da Igreja Católica? E Jesus Cristo foi morto pelo povo
judeu? Ou terá sido crucificado às mãos das autoridades romanas?

As respostas, mais uma vez, são muito mais complexas do que as simples
perguntas. Recorremos à letra daquilo que foi escrito nos Evangelhos,
documentos históricos que permitiram diferentes interpretações ao
longo dos séculos da história desta religião, e estudado por
diferentes especialistas.

Relativamente à Páscoa, há várias hipóteses para contextualizar e
explicar os ritos desta época, que até pode ser celebrada em datas
diferentes, seguindo calendários distintos. Mas há algo que une
milhões de fiéis: a importância da celebração da morte e da
ressurreição de Cristo, após três dias — desta sexta-feira santa ao
Domingo de Páscoa.

Sem este episódio, nada seria igual.

1. Foram os judeus que mataram Jesus?

Ora, um dos motivos mais importantes para assinalar a Páscoa é
precisamente a morte e ressurreição de Jesus Cristo, que foi executado
na cruz na chamada "sexta-feira santa". É nesta altura que se celebra
a vida de Cristo, o que acabou por se transformar no mistério central
do cristianismo. Ou seja, "sem a Páscoa, não existia cristianismo",
tal como dito pelo padre Anselmo Borges ao Observador, noutro especial
sobre fact-checks, lançado em dezembro 2020.

Fica a pergunta: quem mandou matar Jesus? Terá sido o povo judeu ou o
império romano, que o considerava uma ameaça ao poder instalado? Vamos
por partes. Em primeiro lugar, é importante olhar para a pergunta, já
que, feita assim, remete para uma culpabilização de toda a comunidade
judaica ao longo da história, o que não corresponde, de todo, à
verdade. Sim, a crucificação de Cristo foi em Israel, um território
judaico; e, sim, apesar de o governo da época pertencer aos romanos —
ou seja, ser uma entidade dita estrangeira a governar –, o plano da
morte de Jesus surge num contexto em que a sua presença se estava a
tornar uma suposta ameaça à própria religião dominante, segundo os
evangelhos e outros documentos históricos, citados pelos especialistas
escutados pelo Observador.

Isto porque no judaismo apenas um Deus era aceite e Jesus era
apresentado como sendo um. Mas culpar um povo inteiro durante séculos
por um episódio isolado que marca esta celebração pode induzir as
pessoas em erro. Ou seja, esta pergunta é enganadora, porque precisa
de um contexto específico para ser devidamente respondida. "Isso seria
atribuir a todo o povo judeu o fardo de serem aqueles que mataram
Cristo. Se assim fosse, Cristo, que era judeu, seria o próprio rei,
assim como Maria e os seus apóstolos", garante o padre Miguel Pedro
Melo.

Depois, quem, de facto, executou a sua morte foram as autoridades
romanas. "De acordo com os evangelhos, Jesus Cristo foi sentenciado à
morte por Pôncio Pilatos [governador romano responsável pela ordem de
execução], representante do poder ocupante de Roma, a pedido dos
alto-responsáveis do povo judeu, que não teriam autoridade legal para
decretar a execução". É assim que o padre José Maria Brito, da
Companhia e Diretor do Portal de Jesuítas (Ponto SJ), começa por
enquadrar historicamente o evento.

Portanto, esta foi uma execução tanto política como religiosa, mas
exigida e delineada por quem governava. Não estávamos perante um
território onde o Estado estava separado da Igreja (laicismo), havia
um entendimento entre ambos. Mesmo assim, foi o império romano que
acabou por ter a responsabilidade prática de executar o chamado
Salvador.

Ou seja, não se pode afirmar, de forma correta, que "foram os judeus"
que sentenciaram Jesus Cristo à morte, mas sim o poder político
combinado com o poder religioso. Até porque a insistência na morte
desta figura por parte dos chefes do povo judeu levou à criação da
ideia do povo deicida [o que mata Deus], que esteve "presente no
imaginário cristão durante séculos". "Depois do Concílio Vaticano II,
essa imagem e referência foi banida do discurso e da liturgia
católicos, recuperando a ideia do povo judeu como o 'povo da aliança'
e 'irmãos mais velhos de fé' ", afirma o padre José Maria Brito. O que
até levou à reformulação de algumas orações próprias da sexta-feira
santa, data em que se celebra morte de Jesus Cristo.

É nesse sentido que é importante distinguir o povo judeu do poder
político que o governava na altura em que ocorreu a crucificação.
Sobretudo porque, olhando para um contexto histórico mais recente,
esse conflito entre cristãos e judeus foi usado, anos mais tarde e em
diferentes ocasiões, para diabolizar o povo judeu. Um dos momentos
mais significativos dessa manipulação histórica que visava prejudicar
o judaísmo foi feita pelos nazis, como justificação para perseguir o
povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial. "Quem matou Jesus Cristo
não foi um povo em especial, mas sim um poder que foi afrontado no seu
modo de estar, que foi posto em causa pela ação de Jesus. Quem matou
foi o poder religioso e civil instituído", afirma D. Jorge Pina
Cabral, bispo da Igreja Lusitana.

É nesse sentido que o padre Miguel Pedro Melo argumenta que, olhando
para o lado da materialidade histórica — e para o que está escrito nos
evangelhos –, "foram os judeus que fizeram a acusação que levou à
morte de Jesus". Mas isso também acontece porque a execução ocorreu em
Israel, território maioritariamente judaico. Se tivesse acontecido
noutro país, imagine-se Portugal, seria acertado culpar todos os
cristãos portugueses pela morte de Cristo? Não. Não é correto,
portanto, falar no povo como autor, tal como sugere a pergunta
inicial.

Para um melhor entendimento, convém recorrer ao evangelho de São
Paulo, que tem outra mensagem: por um lado, todos nós levamos Jesus à
morte; por outro, essa responsabilização moral por parte dos judeus
levou a que, anos mais tarde, fossem vistos como "pecadores por
natureza". "Quem matou Cristo foi o pecado. Primeiro, o das
autoridades e dos seguidores de Jesus que o abandonaram. Mas não é um
pecado como conceito de fazer mal, é o de achar que a salvação só se
podia realizar através daquilo que se pensava ser a interpretação
correta da escritura: o Messias tinha de ser glorioso, e só se atinge
a glória não se sendo humilhado. Se Jesus estava na cruz, era porque
não era filho de Deus", afirma.

Mas, segundo São Paulo, "todos nós levamos Jesus à morte", argumenta o
padre jesuíta. Lendo os evangelhos de São João e de São Paulo,
percebe-se então que o pecado cometido perante Cristo é, na verdade,
culpa de todos. "Cristo vai à morte pelo pecado universal, não foi só
pelos judeus", termina. Há, portanto, uma culpa — e uma redenção —
espalhada por todos os fiéis ao longo dos séculos, que é sempre
assinalada e relembrada na altura da Páscoa.

Consultando os evangelhos, há várias passagens que confirmam que, de
facto, foram os líderes religiosos a ter a pretensão de executar Jesus
Cristo, mas que essa execução foi levada a cabo pelas autoridades
romanas. No evangelho Segundo São Mateus (26, 3:4), Jesus Cristo
anunciou aos seus discípulos que o "Filho do homem será entregue para
ser crucificado". Logo a seguir, surge esta passagem: "Depois, os
príncipes dos sacerdotes, e os escribas e os anciãos do povo,
reuniram-se na sala do sumo sacerdote, o qual se chamava Caifás. E
consultaram-se mutuamente, para prenderem Jesus com dolo e o matarem."

Noutro evangelho, de São João (11, 47:48), encontramos a justificação
que se prende à explicação tanto de D. Jorge Pina Cabral como do padre
José Maria Brito: Jesus Cristo representava uma ameaça aos poderes
instalados. "Os principais dos sacerdotes e os fariseus formaram
conselho e diziam: Que faremos? Porquanto este homem faz muitos sinais
// Se o deixarmos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e
tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação", lê-se.

A verdade é que, segundo a Bíblia, parte do povo judaico da altura
também não era inocente na vontade de ver Jesus morto, ainda que nada
tenha a ver com o plano engendrado. Mas aqui o povo está representado
especialmente pelas suas figuras mais relevantes. Segundo São Lucas
(23:21), o povo chegou mesmo a gritar pela crucificação, durante o
julgamento de Jesus Cristo: "Falou, pois, outra vez, Pilatos, querendo
soltar Jesus. Mas eles clamavam em contrário dizendo: crucifica-o,
crucifica-o!" Isto porque, na altura da Páscoa, era habitual
perdoar-se um criminoso. O tribunal liderado por Pôncio Pilatos acabou
aliás por perdoar Barrabás, depois dos presentes — povo, sacerdotes,
escribas, etc — terem concordado na pretensão em crucificar Cristo.

É ainda importante dar nota do seguinte: o corte entre o judaísmo e o
cristianismo não ocorreu logo após a morte e a ressurreição de Jesus
Cristo. "Nos evangelhos, vemos várias vezes, já depois destes
episódios, que São Pedro vai visitar a sinagoga. Houve, de facto, uma
manipulação do poder político pelo poder religioso, uma aliança
momentânea, para que não existisse um foco de tensão. A acusação de
Cristo era a de poder ser uma insurreição política que pudesse
desafiar o poder romano", finaliza o padre José Maria Brito.

Conclusão

É enganador — e até perigoso, tendo em conta diferentes episódios da
história — considerar, de forma simplista, que foram "os judeus que
mataram Jesus Cristo". Quando ocorreu a crucificação de Cristo na
altura da Páscoa, o império romano liderava Israel, território onde
ocorreu o evento que marca a época pascal. Ou seja, ainda que
diferentes líderes judaicos tenham planeado a morte desta figura, que
supostamente ameaçava os poderes instalados, bem como a própria
definição da religião judaica (existência de apenas um Deus, por
exemplo), foram as autoridades romanas a crucificá-lo.

No tribunal de Pôncio Pilatos, o responsável por ordenar essa mesma
execução, chegou a existir a hipótese de perdoar Cristo, o que não
aconteceu, tendo sido preterido para Barrabás, um criminoso. É certo
que o povo presente também assim o pretendia, mas considerar que "foi
o povo judeu que matou Cristo" leva a que se crie uma leitura
enganadora dos eventos, que "justificou" depois a perseguição dos
judeus nos anos seguintes, ou seja, o anti-semitismo. Foi por isso que
no Concílio Vaticano II a referência ao "povo deicida" (o que mata um
Deus) foi banida do discurso e da liturgia católicos, para que o povo
judeu pudesse ser integrado como "irmão mais velho na fé".

2. Jesus foi mesmo crucificado na sexta-feira santa?

A resposta é sim, se tomarmos como exemplo os evangelhos, mas nem aí
os dados batem certo entre si, até porque os mecanismos para medir o
tempo eram inexistentes na época. Mas, tal como acentuado pelos
especialistas escutados pelo Observador, as histórias contadas nos
textos bíblicos não tinham a preocupação pela factualidade tal como a
temos hoje em dia. São narrações teológicas de factos e não
cronologias de efemérides religiosas. É por isso que foram feitas, ao
longo dos séculos, tantas interpretações diferentes dos mesmos
documentos. E esse é o motivo pelo qual é seguro afirmar que Cristo
foi sacrificado na sexta-feira, ainda que o ano, a semana e a hora
exata sejam objeto de discordância.

"Segundo os dados que temos dos evangelhos, os três sinóticos (Mateus,
Marcos e Lucas) e São João, os quatro são unânimes em colocar a
crucificação na sexta-feira às 15h00", começa por referir o bispo D.
Jorge Pina Cabral ao Observador.

A diferença é que no de São João, o início da festa da Páscoa judaica
é celebrada no sábado, e os restantes evangelhos colocam essa festa na
sexta-feira. Mas no caso de João, essa festa começa ao final do dia de
sexta-feira, quando o sol se põe. Nos restantes, tem início na noite
de quinta-feira. A festa dura, ao todo, oito dias. Confuso? É tudo uma
questão de cálculos.

Consideremos então o dia seguinte. O sábado era dia de descanso para
os judeus [Sabath], onde não ocorriam historicamente crucificações. É
por isso que os representantes do povo judeu, presentes na
crucificação de Jesus Cristo, terão pedido a Pôncio Pilatos para que
abreviasse o evento. "Na sexta-feira em que Cristo foi crucificado,
que era imediatamente anterior ao sábado em que os judeus celebravam a
Páscoa, foi pedido para que se abreviasse o suplício, já que os
condenados à cruz podiam demorar horas ou dias a morrer", conta o
padre José Maria Brito ao Observador.

E tendo em conta que os corpos sepultados não poderiam estar expostos
no dia santo, quis-se evitar o prolongar da crucificação. "Para que os
corpos de Jesus e dos malfeitores crucificados com ele não ficassem
expostos durante o sábado, já que o contacto ou a vista de um cadáver
tornava o judeu impuro, impossibilitando a deslocação ao Templo,
abreviou-se", afirma José Maria Brito. Isto porque a religião judaica
tem rituais que giram à volta da questão da pureza e da impureza. Se
um judeu ficasse impuro, ficava impossibilitado de se purificar e
entrar no Templo.

Mas se a escolha do dia é aparentemente consensual, a hora nem tanto.
Há um evangelho que poderá referir outro tempo cronológico, o
evangelho segundo João, que dava mais importância ao contexto
teológico. O final de tarde em que Cristo foi crucificado corresponde
à altura em que os cordeiros eram sacrificados no Templo de Jerusalém,
tal como explicado pelo padre José Maria Brito. Essa hora é
ligeiramente mais tarde do que as 15h00 inicialmente referidas. "Eram
usados na ceia tradicional hebraica. Isto é, provavelmente, uma
adaptação do evangelista, para sublinhar a simbologia de Jesus como
'Cordeiro de Deus'", conta o padre jesuíta.

A dita imolação dos cordeiros é uma das chaves deste evangelho,
bastando olhar para o início do texto bíblico: João Batista chama a
Jesus "o Cordeiro de Deus". Dá-se então um sentido novo ao sacrifício
dos cordeiros. Até porque Cristo representava uma renovação
relativamente à religião judaica. Portanto, segundo João, Cristo foi
morto no dia de preparação da Páscoa como cordeiro pascal.

Também é necessário olhar para o dia do mês. E é aqui que os
evangelhos sinóticos "discordam" de João. "Estamos no mês de Nisan, o
mês da Primavera, que era considerado como o primeiro mês do ano para
os judeus. Os sinóticos dão a entender que Jesus comeu a ceia pascal
com os discípulos, na noite do dia 14 de Nisan — que já era dia 15. No
dia 15 acabaria crucificado. Já João diz que Cristo foi crucificado no
dia da preparação da Páscoa, ou seja, no dia 14 de Nisan, durante o
dia. Comeu com os seus discípulos, mas um dia antes: na noite de 13 de
Nisan — que já seria dia 14. Não seria, portanto, uma ceia pascal no
sentido estrito do termo", explica o padre Francisco Martins,
recorrendo a Raymond E. Brown, influente padre católico
norte-americano que morreu nos anos 90, e investigou e publicou
investigações sobre o dia, a hora e o mês da crucificação no livro
"The Death of the Messiah" (1994), a obra de referência nesta matéria.

Hoje em dia, pensa-se que João terá razão. Mas as contínuas
investigações podem sempre apresentar outro resultado num futuro
próximo. Quanto ao dia escolhido (sexta-feira) não há dúvidas.

A dificuldade na compreensão dos dias explica-se de forma simples: o
dia judaico começa no pôr-do-sol do dia anterior e termina no
pôr-do-sol do próprio dia. Ou seja, um dia dito normal no ocidente
tem, na sua essência, dois dias judaicos. E como a Páscoa é uma festa
móvel, não dependia propriamente do dia da semana, mas sim do dia do
mês de Nisan. Ainda assim, não é possível saber o ano exato da
crucificação.

Mas para o padre Edgar Clara, segundo São João, Cristo foi mesmo
crucificado na véspera da Páscoa, que era celebrada pelos judeus ao
Sábado. Ou seja, morreu sexta-feira. "Trata-se, segundo Armand Puig,
professor de escrituras de Barcelona, de apresentar Jesus como 'o novo
cordeiro pascal', ao qual, tal como é preceituado, não é partido
nenhum osso, e que morre trespassado, dando a vida e dando-se
completamente como instaurador de uma aliança nova entre Deus e a
Humanidade", afirma. Portanto, o simbolismo e o dia são os mesmos, só
não corresponde à mesma hora.

O versículo citado para comprovar que este é o dia certo é o seguinte
(João, 19:31): "Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os
corpos na cruz, visto que era a preparação (pois era grande o dia de
sábado), rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem
tirados". Ou seja, tudo foi feito na sexta-feira, de forma mais
antecipada do que o habitual.

Como explicado, a verdade é que existem versões diferentes para a
semana pascal que passam inclusivamente pela última refeição de
Cristo, a chamada "Última Ceia", que terá ocorrido entre Cristo e os
seus apóstolos.

A conclusão sobre as datas diferentes da última ceia foi igualmente
destacada pelo britânico Colin Humphreys, da Universidade de
Cambridge, que escreveu o livro "The Mystery of the last Supper" ("O
Mistério da Última Ceia"). Segundo Humphreys, esse evento terá
ocorrido numa quarta-feira, no primeiro dia de abril do ano 33. E que
a detenção, interrogatório e execução de Cristo não podem ter ocorrido
todos no mesmo dia.

Mas, no fundo, segundo Colin Humphreys, todos têm razão: é, na
verdade, um problema de calendário. Mateus, Marcos e Lucas usaram um
calendário mais antigo (adaptado dos egípcios) que o judaico, o
calendário lunar.

No entanto, quanto à sexta-feira santa, e mais uma vez, "é
relativamente consensual que todos os evangelhos apontem para a
sexta-feira", tal como afirma o padre Miguel Pedro Melo. "Alguns
autores levantaram a possibilidade da quarta-feira e da quinta feira,
mas não há grande evidência absoluta, ou seja, várias fontes com
objetivos independentes a afirmar o mesmo", diz.

Por outro lado, quanto à falta de consenso relativamente às horas de
crucificação, o padre Miguel Pedro Melo é mais pragmático: "São
detalhes, tendo em conta que na altura não existiam grandes mecanismos
de medição do tempo", conta.

Mas o debate à volta do dia da crucificação de Cristo chega ao ponto
de se discutir a famosa citação "ao terceiro dia, Ele ressuscitou",
que surge nos evangelhos, descrita de forma diferente. Há ainda outra,
segundo São Mateus (12:40): "Pois como Jonas esteve três dias e três
noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e
três noites no seio da terra".

À luz da contagem dos dias da era moderna, de sexta-feira a Domingo,
não se cumprem três dias nem três noites. Se Jesus foi sepultado ao
final do dia de sexta-feira, distando apenas duas noites e um dia da
data em que ressuscitou, como é que poderia ter morrido no dia
destacado por diferentes evangelhos? Fica a pergunta, reforçando a tal
ideia de que o rigor não foi um dos critérios aplicados naquela época,
sendo que, por um lado, faltavam meios para calcular o tempo, e, por
outro, a Bíblia apresenta os eventos de forma teológica e não
científica.

Com as várias interpretações existentes e com o debate que a vida e a
morte de Cristo originou ao longo dos séculos, convém dizer que "a
sexta-feira santa" é, sobretudo, uma data simbólica que é comummente
utilizada hoje em dia pela fé cristã. Aliás, em Portugal, esta
sexta-feira é feriado (religioso) por ser sexta-feira santa, tal como
acontece sempre antes do domingo de Páscoa.

Conclusão

É relativamente consensual que Jesus Cristo foi sacrificado na
sexta-feira santa, mas há diferentes interpretações para o que está
espelhado na Bíblia. Basta olharmos para os evangelhos onde apenas um
deles, o de São João, coloca, sim, a sua crucificação no mesmo dia,
mas aponta para horas diferentes. Até porque, segundo esse evangelho,
a cronologia não era uma preocupação. Nesse dia, os cordeiros eram
sacrificados no Templo de Jerusalém, e seriam depois usados na ceia
tradicional hebraica. É por isso que, simbolicamente, Jesus passa a
ser o Cordeiro de Deus. Portanto, a hora seria um pouco mais tarde do
que as 15h00 referidas pelos outros três evangelhos.

Mas tudo poderá estar relacionado com o dia do mês e com a forma como
os dias judeus eram calculados: um dia começa ao final do dia anterior
— ou, se quiser, ao pôr-do-sol. Portanto, na véspera. Sendo o mês de
Nisan, o da Primavera, e que na altura seria, para os judeus, o início
do ano, Cristo, segundo João, terá morrido no dia de preparação da
Páscoa como cordeiro Pascal. Ou seja, no dia 14 de Nisan, durante o
dia. A sua última refeição com os seus discípulos não foi, portanto,
pascal no sentido estrito da celebração. Quanto aos restantes
evangelhos, Cristo terá sido crucificado no dia 15 de Nisan, comendo a
última ceia na quinta-feira à noite, que já seria dia 15.

Por outro lado, Cristo terá sido crucificado na sexta-feira porque o
sábado era dia de descanso para os judeus, um dia santo segundo aquela
religião. Foi por isso que foi aberta uma espécie de exceção por parte
de Pôncio Pilatos, para abreviar todo o evento: além de o sábado ser
um dia de descanso para os judeus, também não era conveniente que o
corpo de Cristo ficasse sepultado nesse período, algo que costumava
acontecer a quem era crucificado (horas ou até dias). É que os judeus,
nesse dia santo, não podiam estar próximos de um cadáver pois
tornar-se-iam impuros, segundo a sua fé, impossibilitando a entrada no
Templo.

Vários países, como Portugal, celebram a sexta-feira santa e o domingo
— que será este ano a 4 de abril — como o apogeu da época pascal.

3. Todos os cristãos celebram a Páscoa no mesmo dia?

Nem todos. Mas a questão justifica-se com os diferentes calendários
utilizados. Essa é, pelo menos, a explicação dada pelo bispo D. Jorge
Pina Cabral ao Observador. "A igreja do oriente segue o calendário
juliano e a do ocidente segue o calendário gregoriano. Isso faz com
que o dia da Páscoa, para os ortodoxos, calhe sempre depois do dia da
Páscoa celebrado pelas igrejas do Ocidente". Ou seja, esta semana, no
início do mês de abril, mais propriamente este domingo, "a seguir à
primeira lua cheia do equinócio".

Mas isso não significa que exista um desacordo relativamente à
importância desta celebração. "É uma questão de calendário, não é por
estarem desunidos na celebração da ressurreição. Infelizmente, ainda
não celebram todos no mesmo dia. Mas todos festejam a verdade da fé
cristã", afirma.

No entanto, nos primeiros séculos da Igreja católica, este tema foi
alvo de múltiplas discussões. Só no ano 325 d.C, no I Concílio de
Niceia, é que chegou a decisão definitiva. E tudo está ligado, mais
uma vez, à Lua. "A Páscoa foi fixada para o domingo após a primeira
Lua cheia de Primavera, depois de 21 de março. Apesar do critério
único, hoje nem todos os cristãos celebram a Páscoa no mesmo dia por
causa das diferentes formas de contabilizar o equinócio de Primavera",
explica o padre José Maria Brito.

Num artigo do The Washington Post, que também se debruçou sobre o
tema, é referido o tal Concílio de Niceia. O consenso chegou, mas não
na forma de calcular a data, o que resultou em mais uma divisão. Os
católicos e protestantes celebravam a Páscoa no primeiro domingo
depois da primeira Lua cheia, após o equinócio primaveril, que decorre
entre 22 de março e 25 de abril. Então, a maior parte das igrejas
segue o tal calendário gregoriano, criado pelo Papa Gregório XIII.
Quanto às igrejas ortodoxas, usam o calendário juliano criado por
Júlio César, celebrando a Páscoa entre 4 de abril e 8 de maio.

Já o padre Edgar Clara corrobora a ideia de que, de facto, nem todos
os cristãos celebram a época pascal no mesmo dia por causa da contagem
das Luas cheias e a forma como essa contagem é feita. Dá até o exemplo
da Páscoa Judaica: "O mesmo ocorre nessa celebração que, em teoria,
deveria ser no sábado santo, mas que muitas vezes não é assim", refere
ao Observador.

Conclusão

Não é verdade que todos os cristãos celebram a Páscoa no mesmo dia,
mas tudo está relacionado com uma questão de calendário. Há quem
celebre esta semana, e quem o faça na semana seguinte. A questão
prende-se com a contagem das luas cheias e como essa contagem é feita.
Ou seja, a contagem do equinócio da Primavera, que é variável. A
discussão da celebração das datas foi feita no início da Igreja
Católica, mas no Concílio de Niceia, ficou decidido que a Páscoa seria
fixada para o domingo após a primeira lua cheia da Primavera, depois
de 21 de março. O critério é único, sim, mas por causa das tais
diferentes formas de contabilizar o equinócio, há cristãos a celebrar
a época pascal em datas diferentes.

4. Não se pode comer carne à sexta-feira durante a quaresma?

"Na Igreja, em memória da morte de Jesus, tradicionalmente todas as
sextas-feiras do ano são de abstinência, em que os crentes são
convidados a uma maior contenção e frugalidade, nomeadamente
abstendo-se de comer carne", começa por referir o padre José Maria
Brito ao Observador. Mas essa regra pode ser adaptada de acordo com as
tradições e costumes de cada lugar: a abstinência da carne pode ser
substituída por uma ação simbólica de penitência ou de caridade.

Durante a quaresma, essa indicação torna-se mais forte, porque é o
tempo de preparação da Páscoa, onde se recomenda um "maior
recolhimento e sobriedade". Apesar de a abstinência não dizer respeito
apenas ao consumo de carne — que era antigamente entendido como um
luxo — mas de tudo o que possa ser vivido desregradamente (álcool,
tabaco ou relações sexuais). "Popularizou-se o não comer carne como,
por vezes, o único 'sinal' da sobriedade a que os cristãos são
convidados, mas há ocasiões em que se perde o seu sentido quando esta
é substituída por alimentos igualmente luxuosos ou mais", refere o
diretor do Portal de Jesuítas.

Ora, portanto, não é uma obrigação ou imposição da Igreja Católica,
mas sim um convite ou indicação.

Quanto à igreja lusitana e anglicana, não existe "nenhum preceito ou
imposição que se faça aos fiéis nesse sentido", argumenta o bispo
Jorge Pina Cabral. "As pessoas comem carne à sexta-feira, eu próprio
como, não tenho problema nenhum. Não a impomos, as pessoas devem ser
livres de a seguir. Essa abstinência é mais de natureza espiritual, o
mais importante é não pecar ao longo da quaresma", diz.

Segundo D. Jorge Pina Cabral, as pessoas podem não comer carne nesse
período precisamente para uma "vivência espiritual interior". Ou seja,
como Cristo foi crucificado a uma sexta-feira, o não comer carne
remete "para o respeito por esse sacrifício carnal", conta.

Em relação às igrejas anglicanas, existe o jejum quaresmal ligado ao
meio ambiente. Durante os 40 dias de quaresma, os cristãos são, assim,
"convidados a fazer uma ação que ajude a preservar a terra". E pode ir
desde ver um filme sobre o planeta azul, praticar uma dieta à base de
legumes ou plantar uma árvore.

O padre José Maria Brito concorda então que, hoje em dia, a questão da
abstinência possa estar mais ligada a um ponto de vista mais
ecológico. Até porque há mesmo movimentos ecológicos que pedem os tais
dias sem comer carne para diminuir a pegada ecológica. Mas, no fundo,
a mensagem é que se mantenha um convite a uma "distribuição mais justa
dos bens, a um despejamento, reconhecendo a responsabilidade da
necessidade do outro", diz.

É ainda importante referir que estes tais 40 dias de quaresma são uma
data simbólica que representa os 40 dias em que Jesus Cristo passou no
deserto, bem como os 40 anos que o povo judeu esteve exilado e fez
depois a travessia pelo Egito até à Terra Santa, tal como relembrado
por D. Jorge Ortiga ao Observador. "Sendo um período de purificação,
de alguma austeridade, para se 'fugir ao normal', foram-se descobrindo
modos. Hoje, damos atenção à leitura de Deus, medita-se sobre ela,
vamos ao encontro dos outros, fazemos obras de caridade", afirma.

No passado era diferente: a penitência estava ligada, sim, à
alimentação. "Era o jejum, tal como Jesus Cristo o fez. Nesses
quarenta dias também jejuou. Essa tradição foi entrando, onde se pedia
um dia sem refeição ou passado com refeições ligeiras. A quarta-feira
de cinzas [a seguir à terça-feira de Carnaval] e a quinta-feira santa
[antes da sexta-feira santa] são dias de jejum. E todas as
sextas-feiras são de abstinência", termina.

Convém também referir que o sentido inicial do Jejum era uma forma de
oração na Bíblia, uma espécie de greve de fome diante Deus. Ou seja, a
pessoa queria que Deus escutasse a sua súplica, colocando-se na
posição de desgraçado, para chamar a sua atenção.

D. Jorge Ortiga deixa ainda outra nota, em jeito de curiosidade: para
os portugueses, abster-se de comer carne pode não significar muito, já
que em Portugal o peixe — que pode ser visto como carne e, portanto,
também poderia não ser ingerido nesta época — é muito consumido.

Já o Padre Edgar Clara argumenta que, em Portugal, a abstinência de
carne remete só para as sextas-feiras da quaresma. "Segundo a
tradição, deveria ser em todas as sextas-feiras do ano, mas em
Portugal está regulado só para essa altura", diz.

Mas há um problema: a Igreja Católica fala para diferentes comunidades
um pouco por todo o mundo e nem todas cumprem a abstinência da mesma
forma. "A Igreja Católica vê-se no difícil serviço de falar para
muitas igrejas em todo o mundo. Há comunidades na América latina em
que o frango é uma carne austera, logo, os bispos latino-americanos,
quando falam da abstinência, não referem o frango", revela o padre
Miguel Pedro Melo.

Só que o não comer carne não é o "grande ponto" à volta da Páscoa,
para os diferentes especialistas escutados pelo Observador. A grande
mensagem é o de recordar Cristo também através do corpo e não só como
uma lembrança. "Mais do que nos sacrificarmos no sentido estoico, de
infligir dor, o que seria inglório porque não sabemos o que o outro
sofreu, o importante é este exercício de espírito, do coração. Cristo
amou-me neste dia, e eu quero recordá-lo de tal maneira que não seja
só uma recordação na minha cabeça", afirma.

Conclusão

Mais do que uma imposição católica, a abstinência da carne é um
convite da Igreja aos seus fiéis nesta altura pascal. Mas essa
abstinência pode, hoje em dia, ganhar diferentes formas: a igreja
anglicana, por exemplo, faz um convite aos seus fiéis para uma
reflexão ecológica, e que pode passar por múltiplas tarefas, tal como
plantar uma planta, praticar uma dieta à base de vegetais ou até ver
um filme ligado às questões ambientais. Segundo os especialistas
escutados pelo Observador, esta altura é um tempo de recolhimento, de
mais sobriedade e de olhar para os outros, que pode ser praticado de
diferentes maneiras. O sentido de abstinência é, portanto, bastante
mais alargado. No passado, a penitência estava muito mais ligada à
alimentação, como o jejum, que chegou a ser uma oração praticada
diante Deus.

Todas as sextas-feiras do ano deveriam ser de abstinência de carne,
mas, em Portugal, a sexta-feira santa é a única onde é suposto os
fiéis não comerem carne. Já a quarta-feira de cinzas e a quinta-feira
santa, que precedem esse dia na Páscoa, são dias de jejum. Mas isso
não quer dizer que todos os cristãos tenham de a seguir estas
indicações à letra hoje em dia, até porque essa prática depende do
povo, do país, das tradições e costumes em que a Igreja está inserida.
A abstinência da carne pode então ser substituída por uma ação
simbólica de penitência ou de caridade.

5. O coelho da Páscoa tem alguma relevância na Bíblia?

Não e nem tem qualquer tipo de relevância bíblica como símbolo. Por
outro lado, nem existem certezas sobre a sua real origem. Aliás, tanto
quanto foi possível apurar, grande parte das explicações não tem
qualquer evidência documental. Todos os especialistas escutados pelo
Observador confirmam que, de facto, este animal não tem relevância em
qualquer um dos evangelhos.

Trata-se, sim, de um mito urbano que depois foi aproveitado por
diferentes culturas na hora de celebrar a Páscoa, mercantilizando a
época — e tornando-a mais atrativa também para as gerações mais novas.
Pode-se equiparar até ao Natal, onde a origem do Pai Natal também não
é 100% conhecida, tendo várias histórias e crenças à sua volta.

Porém, curiosamente, surge numa passagem bíblica, em Levítico (11:5 e
11:6), sobre os animais que se devem ou não comer, num diálogo entre
Moisés e Aarão: "E o coelho, porque remói, mas não tem as unhas
fendidas; este vos será imundo // E a lebre, porque remói, mas não tem
as unhas fendidas, esta vos será imunda". Esta figura querida dos mais
novos vê-se associado a uma imagem negativa, se tomarmos por
referência apenas estas duas passagens. Ainda assim, nunca é referido
como "coelho da Páscoa".

Se não é referido na Bíblia com o sentido que hoje em dia lhe damos,
como é que se tornou num símbolo da época pascal? A hipótese mais
forte é a de que o coelho se tenha tornado mais uma das adaptações das
celebrações pagãs — neste caso da Primavera — por parte da Igreja
Católica. A verdade é que a origem do coelho pascal não é
completamente clara, não tendo, por isso, evidência histórica. Há quem
aponte para uma adaptação da mitologia nórdica, mas mesmo essa tese
carece de uma base histórica mais acertada. No entanto, depois de
consultados vários artigos sobre o tema, é possível dizer que uma das
razões para que este animal tenha permanecido ligado à Páscoa é pela
evocação simbólica da fertilidade. Como se sabe, o coelho é um animal
muito fértil. Ora, fertilidade pode representar uma nova vida — uma
ideia que, neste caso, tem relação com o sentido dado às comemorações
pascais.

Olhando para a atualidade, esta figura acaba também por ser usada como
forma de aproximar as crianças à Páscoa. "Penso que será uma tradição
pagã mas que se pratica em algumas igrejas como forma de envolver as
crianças nos rituais pascais. Nas nossas, por exemplo, escondemos o
coelho de chocolate nos jardins para as crianças o procurarem. Ou
seja, os ritos cristãos assumiram ritos pagãs e deram-lhes um sentido.
Cristo é a vida nova, o coelho remete para Cristo", começa por referir
o bispo D. Jorge Pina Cabral ao Observador.

Como a origem é incerta, é preciso olhar para os países e as culturas
em que o coelho teve algum tipo de influência simbólica. Por exemplo,
no antigo Egito, o "coelho simbolizava a vida e o nascimento, era um
símbolo de fertilidade", afirma D. Jorge Pina Cabral. Há também quem
aponte para a Alemanha como território onde foi criada a lenda por
detrás do coelho para se celebrar a Páscoa. Ou seja, nem o país de
origem é possível saber neste caso.

Quanto à Bíblia, de facto, o coelho não surge com nenhuma relevância
teológica, tal como evidenciado pelos diferentes especialistas ao
Observador. "Há outros animais ligados à paixão de Cristo, como o
galo. No episódio da traição de Pedro: durante a noite, quando Jesus
estava a ser julgado, Pedro confessou que nem era discípulo nem O
conhecia", disse D. Jorge Ortiga. Essa história está ligada a uma
passagem bíblica onde se diz o seguinte: "Em verdade te digo que esta
noite, antes de cantar o galo, três vezes me negarás", refere Jesus a
Pedro. E assim foi.

O Coelho da Páscoa tornou-se tão famoso que passou a surgir até no
meio de políticos.

Consultando diferentes artigos, encontra-se a tal possível relação
entre o coelho e as festividades pagãs. Praticamente todos os textos
consultados pelo Observador referem esta ligação, ainda que não esteja
devidamente documentada. Olhemos para um da revista Time de 2015, que
traça a suposta cronologia deste animal. O festival de Ostara, a deusa
germânica da fertilidade, que poderá ter sido também a deusa da
primavera, tinha o símbolo do coelho, animal muito fértil. Ora:
primavera, fertilidade, a adaptação pagã da Igreja Católica e o
coelho, tudo junto, deram origem às tradições da Páscoa tal como as
conhecemos.

Mais tarde, há também referências quer aos coelhos quer às lebres,
animal semelhante. Em 1835, no livro "Deutsche Mythologie", Jacob
Grimm escreveu, citado por um artigo do The Conversation: "A lebre
pascal é incompreensível para mim, mas provavelmente será o animal
sagrado da Ostara, que poderá ter sido a Deusa do Sol radiante, da luz
primaveril, um espetáculo que traz felicidade, benção, cujo
significado pode ser facilmente adaptado ao dia da ressurreição do
Deus cristão." Poderá ter sido a partir deste mito que se fabricou a
teoria em torno do coelho da Páscoa.

A verdade é que a Igreja acolheu imagens não bíblicas precisamente
porque, segundo o Padre Miguel Pedro Melo, Deus assumiu e encarnou
toda a natureza humana e não só as práticas de Israel. "Assumiu a
nossa cultura, o nosso dia-a-dia. A evangelização parte disto. No
início, os padres eram muito dados a isto: se há um simbolismo pagão
que de alguma maneira tenta expressar uma realidade da fé, esse sinal
bonito expressa-se plenamente em Jesus". Ou seja, tudo pode falar de
Cristo, segundo o padre jesuíta. Portanto, pode concluir-se que esta
foi uma forma transitória da Igreja Católica integrar os costumes e
rituais dos diferentes povos que foi doutrinando, dando liberdade
religiosa aos fiéis.

A simbologia cristão do coelho é semelhante em relação ao ovo: um
símbolo do nascer da vida, que se liga à ressurreição de Jesus Cristo.
Aliás, por vezes, o ovo pode mesmo estar ligado ao retorno à vida, já
que a ressurreição não é tanto um regresso à vida, mas sim um surgir
de uma vida nova e eterna. "O ovo é sinal de uma vida que nasce,
alguém que rompe a casca e vem cá para fora. Esse foi outro sinal que
foi adotado", conta D. Jorge Ortiga ao Observador.

É por isso que — tal como explicou o antropólogo francês, Philippe
Matthey, do Departamento de Ciências da Antiguidade da Universidade de
Genebra, a uma criança de sete anos que questionou a origem das
referências ao ovo e ao coelho — o primeiro pode até remontar à Idade
Média, onde se tornou um símbolo perfeito da ressurreição. Jesus "saiu
do túmulo" como um pintainho sai do ovo, quebrando a sua casca. As
respostas, em francês, podem ser encontradas no site da Radio
Télévision Suisse.

Consultando o "Dicionário dos Símbolos — Mitos, Sonhos, Costumes,
Gestos, Formas, Figuras, Cores, Números", de Jean Chevalier e Alain
Gheerbrant, não existe qualquer referência ao coelho, mas sim ao ovo.
"O nascimento do mundo a partir de um ovo é uma ideia comum a celtas,
gregos, egípcios, fenícios, cananeus, tibetanos, hindus, vietnamitas,
chineses, japoneses, povos siberianos e indonésios, bem como a muitos
outros", lê-se logo no parágrafo inicial dedicado a este alimento.

Ora, o ovo, que assume diferentes significados, contém "em germe a
multiplicidade dos seres", podendo ser também "uma representação do
poder criador da luz", mas também o símbolo do renascimento e da
repetição. Pode até representar, então, um ciclo biológico.

A sua decoração com diferentes cores e outros efeitos que se
estabeleceu como tradição até aos dias de hoje poderá remontar ao
século XIII. Durante a quaresma, chegou-se mesmo a indicar que não se
podiam comer ovos nesse período, estando reservado o seu consumo para
a Páscoa. De acordo com o site History.com, citado pela Time, muitos
anos mais tarde, já no século XIX, a alta sociedade russa começou a
partilhar ovos ornamentados — e até peças de joalharia, os famosos
ovos de Fabergè– na época pascal.

Tal como no especial de fact-checks sobre o Natal, os Estados Unidos
da América têm também aqui um papel importante na construção da
mitologia à volta do coelho e dos ovos — em concreto, os povos
emigrantes, neste caso alemães, depois de cruzarem o oceano Atlântico
até chegarem a terras do 'Tio Sam'. Os imigrantes alemães chegaram no
início do século XVIII à Pensilvânia e levaram consigo uma tradição:
as crianças faziam ninhos onde uma criatura depositava os seus ovos
coloridos. Essa criatura era uma lebre. A tradição expandiu-se pelo
país, dando-lhe um toque cada vez mais guloso, onde o chocolate seria
também introduzido, tal como outro tipos de doces ou prendas. As
vendas começaram a surgir em 1890, quando um homem decidiu fazer um
coelho de chocolate de grandes dimensões. Um pouco antes, tanto no
século XVI como no seguinte, também surgiram textos com referências ao
coelho pascal como uma espécie de fábula antiga.

Conclusão

Tratando-se de um mito, o coelho da Páscoa não é, em primeiro lugar,
um símbolo bíblico. Ou seja, não tem qualquer tipo de relevância nos
evangelhos. Existe, portanto, a hipótese de ter existido uma adaptação
de tradições pagãs por parte da Igreja Católica, mas essa teoria tem
pouca ou nenhuma evidência histórica, ainda que seja a mais referida
nos artigos consultados.

No entanto, a origem do coelho pascal pode ter diferentes "pais", num
misto de suposições, lendas e rumores mediáticos: julga-se que foi a
partir do festival pagão em homenagem à deusa da fertilidade, Ostara,
que se começou a estabelecer associações com este animal, já que
também é muito fértil. E fertilidade significa vida. Sendo a Páscoa
uma época em que se celebra e comemora, entre outras coisas, a
ressurreição de Cristo — ou seja, a sua vida eterna –, este animal
acabou por fazer parte do imaginário pascal.

Há também quem o ligue aos povos germânicos ou aos imigrantes alemães
que partiram para a Pensilvânia no século XVIII. Aí, as crianças
construíam ninhos para que uma criatura, a lebre, fosse depositar os
ovos coloridos. Mas, como se sabe, nem a lebre nem o coelho depositam
ovos. É, por isso, uma tradição como tantas outras, sem qualquer rigor
científico.

É também importante referir que tanto os ovos como os coelhos fazem
parte de uma adaptação desta época que pode ajudar os mais novos a
compreendê-la, através de diferentes fábulas contadas ao longo do
tempo, mas que também favorece a mercantilização destes tempos
festivos. 

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